domingo, 15 de novembro de 2009

Civilidade, quem tem?


Hoje comentava com amigos sobre uma matéria que estudei no primário (anos 70) que se chamava Moral e Cívica e que achava a coisa mais inútil que existia no currículo escolar. Que vergonha, hoje me arrependo de ter pensado desta forma. Mas, claro, era um pré-adolescente que só pensava em ter aulas de educação física todos os dias da semana. Agora, vejo como faz falta se aprender sobre cidadania.

Vivendo aqui na Inglaterra e conhecendo um pouco a Europa consigo ver as diferenças entre ambos os continentes de maneira mais clara . E impossível não se comparar ou fazer referências quando vivemos em outro lugar. Vou generalizar e me afastar um pouco da raíz deste tema para poder chegar aonde eu quero e poder traduzir de forma clara meu pensamento. Talvez você se encaixe em alguns dos modelos que irei mencionar.

Se imagina que aqui seja tudo perfeito, com ruas impecáveis, trânsito seguro, pessoas educadas, lojas elegantes, sistema de saúde eficiente, excelente infra-estrutura, etc. Será que isto é um fato? Sim e não, O que é verdadeiro nesta afirmação de que tudo é perfeito? A resposta é: Depende!! Depende do que você quer analisar. E um pouco complicado explicar sobre isto. Muitos têm uma idéia completamente distorcida da nossa realidade e outros, que estão mais bem informados, ainda assim caem na armadilha das generalizações, daquilo que escutam de algumas pessoas ou pior, pelos meios de comunicação. Se fizermos uma tabela comparativa para traçar o perfil de cada ítem a ser analisado poderemos chegar a um resultado mais próximo da realidade. Analisemos as estradas, por exemplo: São melhores em todos os sentidos, seja iluminação, asfalto, segurança e ainda estão livres de pedágio, mas seria uma covardia comparar o nível delas com as famosas estradas da Franca e da Alemanha. As ruas de Londres são na maioria estreitas, o trânsito é lento ( o que o torna seguro de certa forma),não se consegue local para estacionar facilmente e ainda estão sempre congestionadas, contudo, você nunca será abordado por uma pessoa pedindo esmola, ou será vitima de sequestro relâmpago como temos no Brasil. A educação primária e secundária do estado está anos luz a frente do Brasil em termos de infra-estrutura, segurança, controle, organização, poren se considerarmos as escolas privadas brasileiras a diferença já fica atenuada. Andar nas ruas a noite ou pegar ônibus para voltar de uma balada as três da manha é algo comum em Londres, situação esta que seria uma tentativa de suicídio numa cidade como São Paulo. Mas, por outro lado, Londres comparada com cidades como Copenhague , capital da Dinamarca, são consideradas perigosas. Você percebe que estou traçando paralelos de comparações? Não posso comparar o clima de Salvador com o clima de Londres, mas, posso comparar a diversidade de atrações. Seria ilógico tentar comparar a beleza do litoral de Santa Catarina com os Alpes Suíços. São belezas diferentes e se encontram em categorias distintas de classificação. Por isso acho difícil dizer que grau de perigo, de eficiência, tecnologia uma cidade possui sem ter um paralelo. Londres é perigosa? Você já saberá minha resposta. Depende. Para mim, que vivi no Brasil a maior parte de minha vida diria que aqui é seguro, mas para um finlandês ou sueco, acostumados com índices de violência muito baixos, nao se sentem muito seguros.

Utilizei este exemplo das comparações com referências para entrar na questão da cidadania. Falta muito sentido de cidadania no Brasil e isso é algo que salta aos olhos de quem e Europeu, mas não de quem é brasileiro. Existe uma falsa idéia ou noção de irmandade e camaradagem entre todos, mas isto é muito falso. O famoso jeitinho esperto do brasileiro de sempre burlar as regras, por mais insignificantes que pareçam e se aproveitar de brechas em determinadas situações para se favorecer é o maior exemplo de falta de cidadania e respeito pelos seus conterrâneos. O curioso é que a grande maioria que age dessa forma, o faz de maneira inconsciente, sem “maldade”. A questão é que estas atitudes individualistas, principalmente egoístas acabam a médio e a longo prazo prejudicando seus vizinhos, amigos, familiares e a si mesmos. E um verdadeiro tiro no pé, só que a dor vem mais tarde. Uma situação corriqueira e que todos convivem: quantas pessoas passeiam com seus cachorros pelas ruas e parques (que são públicos) e não recolhem seus dejetos e jogam no lixo? Muitas, não? Mas a mesma pessoa se pisar numa vai amaldiçoar o cão e o dono que deixou ali. Então, ela não se da conta que fez a mesma coisa há alguns dias atrás. Os exemplos são inúmeros em quaisquer situações que possamos pensar. Sempre prevalece o “EU” e azar do outro. Essa visão estreita, mesquinha e até covarde acaba pouco a pouco minando as relações humanas numa grande cidade e destruindo uma sociedade. Você acorda irritado porque seu vizinho de prédio colocou o som a todo volume no domingo pela manhā,porém na noite anterior você deu uma festa no seu apartamento até as quatro da madrugada. Você terá alguma moral para reclamar do barulho?

Para estas duas situações bem típicas no dia a dia de uma grande cidade existem leis especificas, só que, infelizmente no Brasil, raramente elas são aplicadas. Aqui, na Inglaterra, muitas das leis só funcionam porque elas são executadas, não porque todas as pessoas sejam mais conscientes. Agora creio que você possa estar confuso com esta minha afirmação, afinal, aqui na Europa as pessoas são mais “civilizadas”, não? Sim e não! Que pessoas, eu pergunto? Qual a origem delas? O que você julga como sendo Europeu? Alguém que nasceu ou apenas vive aqui? tem origens européias (padrão caucasiano)? Este e um tema delicado e complexo de abordar e exige cuidado para não se entrar em questões de racismos e predileções.

Pessoas de maior nível educacional e cultural( nao necessariamente econômico),em qualquer parte do mundo tendem a ser pessoas com uma noção muito mais apurada de civilidade, de cidadania, de respeito pelo espaço público e privado. Isto é quase uma regra, mas como em tudo, há sempre exceções. Não consigo imaginar um cidadão com este perfil jogando lixo na rua, roubando flores do vizinho, rodando de carro com o som alto de madrugada ou danificando uma propriedade por simples prazer. Para estes cidadãos não é necessária uma lei para impôr o que elas devem ou não fazer, pois agem de forma natural, com senso de respeito pelo próximo e não por medo de serem punidas. Este perfil de pessoas está por todas as partes, o que muda é a quantidade delas no mesmo espaço físico. Aqui nos temos este fenômeno devido a questões históricas, já que a Europa está alguns milênios a frente da América. Só que não podemos esquecer de que uma cidade como Londres acolheu milhões de imigrantes e muitos são provenientes de paises subdesenvolvidos em termos de educação, cidadania e tecnologia. As leis que aqui se fazem cumprir funcionam muito bem, principalmente em cima destas pessoas que não tiveram esta educação de berço e aqui aprendem, digamos, na “marra”. E triste ter que punir seres humanos, mas e ainda a única forma de manter a ordem e a aparente harmonia dentro de uma sociedade. Não vou citar de que países vêm estas pessoas porque a questão aqui não é apontar culpados pela lenta degradação da qualidade de vida desta cidade.

Quando penso em paises como a Dinamarca, Noruega, Suécia e Japão , invejo o grau de educação e consciência que estas sociedades conquistaram. Eles não necessitam de punições para exercerem o respeito. Alias, tudo se resume em respeito. Tudo que não tem como base o respeito pode terminar em violência, roubo, exploração, traição e muitas outras consequências negativas. Quando as pessoas se respeitarem, por vontade própria e não por medo de serem punidas, estaremos entrando numa nova fase de desenvolvimento humano real. Enquanto isso, as leis continuam a existir e a cada dia ficam mais rígidas. No Brasil bastaria apenas aplicá-las para colocar um pouco mais de “ordem na casa”.

Quero encerrar com uma visão muito pessoal do que eu considero como respeito. Respeitar não é apenas dar bom dia para o vizinho, mas manter a sua calçada limpa e respeitar os horários de silencio. Respeitar não é apenas elogiar seus funcionários, mas pagar um salário decente e promover seu desenvolvimento pessoal e profissional. Respeitar não é falar só o que o amigo gosta, mas não fazer falsas promessas. Respeitar não é dar prioridade na fila de um banco para um idoso, mas criar um sistema que ele nem precise mais ir ate lá desnecessariamente. Respeitar um cliente não é dar um sorriso “amarelo" e oferecer um cafezinho, mas ser transparente e direto na negociação.

Creio que sou um pouco idealista e utópico, mas não custa sonhar.

2 comentários:

  1. Adorei esse post, me identificuquei muito. Deixei um comentário em um outro post sobre acomodção, falando sobre escolas para meus filhos. Mas acabei esquecendo de colocar meu e-mail: chrisgurgel@uol.com.br. Agradeço antecipadamente as dicas!

    Abs,

    Christiane

    ResponderExcluir
  2. Belo texto, Vladimir. Sou fã de seu blog. Parabéns!

    ResponderExcluir