sábado, 24 de outubro de 2009

Nao sou brasileiro, nao sou estrangeiro, sou de lugar nenhum...

Eu nunca utilizei este blog para escrever sobre mim. Algumas informações pessoais vocês encontram na minha apresentação. E apenas um breve resumo para que saibam ao menos o perfil de quem escreve. Só que hoje decidi falar um pouco sobre mim e abordar um assunto que poderá gerar certa polêmica, ou um desconforto, porque não e comum se refletir sobre nossa identidade cultural. Estas conclusões eu cheguei depois de muito pensar na importância que o contato com muitas culturas desde a infância teve na formação da minha personalidade.

Você recorda desta canção do Titãs? que dizia assim, “Não sou brasileiro, não sou estrangeiro, não sou de lugar nenhum.....”? anos 90

Pois, é exatamente assim que eu me sinto, ou melhor, sempre me senti. Você, caso tenha lido meus posts, percebera que eu não costumo jogar confetes, seja no Brasil? ou mesmo na Inglaterra? Lógico que há coisas ótimas em ambos, mas minha intenção trazer informações, pontos de vista, exemplos do cotidiano para que você possa analisar de maneira lógica e racional a vida neste lado do mundo. Mas alem disso, eu tenho uma posição muito neutra com relação a qualquer nacionalidade. As vezes pode parecer um elogio quando comento sobre coisas interessantes que existem nesta cidade, mas isso são apenas fatos. Eu tenho minhas referências, certamente.

Não e difícil de entender esse minha forma de sentir e pensar quando você descobre que nasci em Santiago do Chile, filho de mãe brasileira, pai chileno, neto de avo croata, e vivo na Inglaterra. Um de meus sobrinhos e espanhol e sua língua predominante e o catalão. Numa família que poderia ser uma sede da ONU é impossível você assumir integralmente uma nacionalidade. Tenho passaporte Brasileiro e Francês, mas tenho 3 nacionalidades hoje (poderia pedir a Croata se quisesse e teria quatro) . Alguns que estão em situações semelhantes a minha as vezes estufam o peito pra dizer que são de uma determinada nacionalidade, só que esquecem que na forma de serem, na maneira de pensarem e nas atitudes, muitas vezes são frutos das influencias de outras culturas e não apenas de uma só. Sempre foi muito desafiante viver entre culturas paralelas no meu dia a dia. Um pai que falava espanhol e uma mãe que falava português em casa. Quando não estava trabalhando, ele escutava musicas dos Beatles, o que acabou influenciando muito minha predileção pela língua inglesa e consequentemente o rock inglês. As vezes, é normal haver certos choques culturais. Embora tenha vivido a maior parte de minha infância no Chile, costumava passar as férias de verão no Brasil e sempre era necessária uma adaptação, não apenas ao clima, mas também aos costumes e até a língua. Hoje acontece a mesma coisa porque vivendo aqui, cada vez que vou a Franca, nas minhas férias, eu preciso de um tempo para me adaptar e me integrar a vida deles. E acredite, no Brasil me acontece o mesmo. Apesar de ter muitos amigos brasileiros em Londres, não e a mesma coisa. Demoro alguns dias para entrar no ritmo. Porêm, tudo isso é muito enriquecedor, apesar de ser um pouco desafiador e até confuso pra quem não esta inserido neste contexto.

Como desde criança fui exposto a diferentes línguas, costumes e climas, e convivi com pessoas de diversos paises, as impressões que ficaram registradas na minha mente e de que neste mundo não existem fronteiras. Todos somos iguais, o que diferencia é a forma como entendemos o mundo e nos expressamos.

Com o advento e explosão da Internet o mundo encolheu. Mais convencido ainda eu fiquei de que não existiam divisões reais, mas apenas imaginarias, criadas pelos homens, para delimitar seu espaço de conquistas e poder. Não proponho o fim das diversidades culturais, pois a interação com outras culturas é enriquecedora. Aprender com cada povo é fascinante. Mas, há muito tempo eu deixei de lado qualquer tipo de sentimento nacionalista, daquele típico apaixonado pelo Brasil e suas infinitas belezas (futebol, praia, mulheres)ou dos espanhois com suas honra. Não, hoje não sou assim. Não me sinto mais na obrigação de fazer juras de amor ao meu país. Não creio que eu deva algo ao Brasil ou ao país onde nasci, o Chile, nem mesmo onde vivo. Agradeco sim ,de verdade, por todas as oportunidades que me propiciaram. Isso sim eu faço questão de enfatizar. Assim como agradeço sempre a possibilidade de poder viver na Inglaterra, que é onde eu pretendo que meu filho se eduque e seja feliz até ele resolver um dia mudar, por vontade própria. Cada nação serviu e ainda serve de palco para que eu possa desempenhar diferentes papeis e consiga desenvolver meus potenciais. Se no Chile aprendi a ser disciplinado e responsável, no Brasil, a ser flexível e apaixonado pela vida. A Franca me motiva a amar o bom gosto e o refinamento, a Inglaterra, a ser integro, honesto e realista. Cada pais por onde eu passei tem seu lugar no meu coração.

Portanto, sempre achei complicado ter que torcer por alguma seleção nacional, seja em qualquer modalidade de esportes. Sempre me senti um pouco de cada pais e não via razão para querer que um triunfasse mais do que o outro. Talvez ache isso curioso, mas seria como ter dois irmãos, cada um jogando para uma equipe diferente (que não e a equipe que você torce) e elas tiverem que se enfrentar. Para qual você iria torcer? Por isso eu não gosto de levantar bandeiras.

Nunca digo que tenho orgulho de ser de algum pais, em especial. Particularmente não gosto desta palavra. Ela ambígua podendo ser vista tanto como uma atitude positiva como negativa dependendo das circunstâncias. Orgulho pode ser empregado tanto como sinônimo de soberba e arrogância quanto para indicar dignidade ou brio. Infelizmente, muitas nações levaram esse orgulho negativo ao extremo e as consequências todos sabemos quais foram. Nacionalismo é algo perigoso. Gostar de sua pátria e outra coisa. E algo bom e essencial para poder viver em harmonia. Mas, não é apenas com palavras que se mostra isso ou vestindo camisetas da seleção. São nas atitudes diárias. Burlar as leis, ludibriar seus conterrâneos, explorar seus funcionários ou cometer delitos são ações que vão contra a ordem e o progresso. Nunca entendi os criminosos das favelas do Rio torcendo pela seleção brasileira. sepre me perguntei :Torcendo pelo que? Por seu país? Qual ? O mesmo que ele ajuda a destruir? O que ele busca? Reconhecimento internacional? Tapinha nas costas dos “gringos” dizendo, Brasil e legal! Preciso entender mais da natureza humana.

Este é um exemplo extremo que eu usei , mas posso aplicar em diversas situações para mostrar que são as atitudes, o caráter de cada pessoa que faz a diferença e se ganha o respeito em qualquer parte do mundo, não ser originário deste ou daquele pais. Conheço muitas e muitas pessoas que estão longe do perfil tipicamente brasileiro, mas vivem no Brasil. Estas sofrem por não terem tantas afinidades com a cultura. Como ficam neste caso? Será que ela é brasileira de “alma”. Ou apenas nasceu no país “errado”. Como se sentira de ter que carregar o emblema de cidadão brasileiro a vida toda sem se sentir parte dele? Poderia ser qualquer outro lugar, este e apenas um exemplo.

Sempre me senti um verdadeiro cidadão do mundo, um andarilho neste planeta, pouco me importando a cor da bandeira que me recebia. Sempre pensei como deve ser interessante ser um sueco, vivendo em um das sociedades mais evoluídas que existem, ou ser um australiano num pais rodeado de praias parasidiacas ou canadense com uma vegetação impressionante. Não vejo nenhuma delas em termos de melhor ou pior, apenas diferentes. Meu único orgulho creio, e pelo o que eu sou, construí e pelo o que eu tenho a oferecer. Não espero que nenhuma nacionalidade me dê credenciais ou me um sentido de pertencer. Acho que consegui superar isso. Para mim, uma vitória.

Escolhi viver aqui por uma simples questão de afinidade com esta cidade. As coisas e pessoas que eu gosto e valorizo eu encontro aqui em maior numero do que em outras partes. Não reclamo do clima porque não sou movido a sol. Se o calor para mim fosse imprescindível eu viveria no nordeste do Brasil. Se amanhã ou depois, eu descobrir que outro lugar me oferece melhores opções e eu puder me locomover, perfeito, poderei até considerar essa mudança. Lógico que não cheguei a esse ponto de mudar a todo instante, mesmo porque isso cansa e exige toda uma adaptação. Confesso que cansei um pouco e hoje pretendo ficar o máximo possível nesta cidade.

Quando me refiro a não existir barreiras ou fronteiras no mundo, quero dizer que apesar de vivermos em sociedade, somos seres individuais, acima de tudo, e deveríamos construir nossa identidade e personalidade pelas nossas virtudes, nosso caráter, não pelo estigma ou louros que uma determinada nação carrega. Talvez nunca tenha se questionado sobre isso, mas eu passei a vida toda nesse dilema.

Por isso lembrei tanto dessa musica dos Titãs , pois ela sempre me fez repensar o mix de nacionalidades que fazem parte de minha vida e como eu me relaciono com elas.

6 comentários:

  1. Olá Vladimir

    Eu sempre acompanho seu blog e me fascina a forma como voce vê as coisas.

    Se a gente parar para pensar o patriotismo originou-se com o intuito de unir as aldeias para se construir as cidades os estados e mais tarde as nações. Hoje já nao existe mais essa finalidade e sim os sentimentos individuais . Voce compara fatores positivos e negativos,escolhe aquele que melhor te agrada e faz as malas. O patriotismo joga a poeira pra debaixo do tapete e enaltece apenas as coisas boas. acho seu pensamento racional e pés no chão. voce vê as coisas de forma clara e da forma como elas são e nao como voce gostaria que elas fossem. muito legal!!!!

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  2. Olá Vladimir
    Minha filha está indo para Londres e nas minhas muitas pesquisas encontrei o seu blog.
    Adorei.
    Será que você poderia tirar uma dúvida que está esquentando minha cabeça??? Qual a melhor opção: casa de família ou residência estudantil?
    Li o que você escreveu sobre cada uma delas. Mas ainda estou em dúvida...
    Minha filha tem 20 anos, cursa o 6o período de Direito, é responsável, econômica e muito comunicativa.
    É a primeira vez que viaja para fora do Brasil e vai ficar em Londres 4 semanas. E mais 4 semanas viajando para outros locais.
    Ela tem hábitos simples, mas é acostumada com um certo conforto, como ter seu próprio quarto e banheiro.
    Fiquei um pouco precupada com a questão dos usuários de drogas em residência estudantil. É muito barra pesada? Há algum tipo de violência?
    Desde já agradeço sua atenção.
    Meu email é rosycp66@gmail.com.
    Abraços.

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  3. Oi. Gostei do seu blog, vc tem um ponto de vista claro, isso é ótimo.

    Bom estou fazendo planos para viver londres em janeio.(tier 4)mas com essas mudanças de leis, fico com a impressão que mtas pessoas estão perdidas.

    Já pedi opinião de muitos e cada um me fala uma coisa sobre os documentos necessários para o visto, e fiquei super na dúvida da acomodação. Alguns falam que nao precisa, outras falam que é melhor comprar na casa de familia, outros falam que nao é bom ter uma carta convite. Efim, estou super confusa, se vc tiver alguma informação e/ou opinião sobre isso, seria ótimo!

    meu e-mail: actishe@gmail.com
    E parabéns pelo blog!

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  4. Vladmir, acompanho o blog pode se dizer que desde o inicio, pois sou apaixonado por Londres desde meus 12 anos de idade, e hoje com 20 acredito que irei conquistar meu sonho de conhecer essa cidade.

    Sou apaixonado justamente por essa multinacionalidade que Londres propicia e que tanto me fascinou qdo eu tinha 12 anos.

    Suas palavras nesse post, se me permite dizer, posso considerá-las como minhas também e acredito que de muitas outras pessoas. Normalmente ao ler uma pessoa associa a voz de quem escreveu como se fosse uma conversa que estivessem tendo, mas como não te conheço, li o seu texto com a minha voz na cabeça e foi incrível como em certas partes do texto o seu ponto de vista se assemelha ao meu.

    Gostaria novamente de Parabenizar o Blog e deixo o meu email: gssilvajr@hotmail.com

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  5. Olá, adorei saber que em alguém que como eu, não usa máscaras, que diz o que pensa, com honestidade de propósito. Sinto exatamente o mesmo que vc. Parabéns! Continue assim, integro, inclusive com seus pensamentos. Grande abraço.,

    Lane
    rousilanemorais@hotmail.com

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  6. Olá Vladimir,
    adorei o seu blog e cheguei nele hoje, por acaso. Eu add você no msn pois estou com algumas dúvidas sobre o mercado de comunicação em Londres. Estou indo na próxima semana e vou lhe mandar um e-mail.
    Com certeza irei ler todo o seu blog muito rapidamente.
    E achei você uma pessoa muito consciente e fico feliz de terem pessoas assim no mundo. Não nos faz parecer um pontinho no oceano...

    Raquel

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