quarta-feira, 30 de setembro de 2009

O meio que nos rodeia

Depois de algumas semanas sem ter tido tempo de atualizar este blog, devido a compromissos profissionais e familiares, volto a escrever sobre a vida e cultura desta metrópole que nunca para de me surpreender. Gosto de escrever sobre as impressões que eu recebo do meio onde eu circulo e das experiências que eu vivo diariamente aqui.

Quem está no Brasil e sonha em vir ou já esta com a viagem marcada fica sempre muito ansioso na expectativa do que irá enfrentar quando chegar e as situações pelas quais irá passar durante sua estada, seja esta de curta ou longa duração. Ē uma reação natural esta ansiedade. Alguns entram em pânico e ficam suando frio só de pensar em ter que pegar o avião, passar pela imigração, pegar o metrô, caminhar pelas ruas sem entender a língua, e outros já sentem a adrenalina no sangue desde o momento que compram a passagem.

Pense que quando você chegar aqui estará mergulhando numa outra realidade. Como se estivesse entrando numa outra dimensão. Curioso que, quando me comunico pelo msn, com meus amigos ou pessoas que me acham através deste espaço, fica sempre uma falsa noção de proximidade física devido a velocidade que a mensagem é transmitida e recebida. Só que isto é uma ilusão. Na verdade não estamos apenas separados por um oceano gigantesco, a milhares de milhas de distância, mas estamos separados pelo ambiente que nos rodeia. O ambiente nos afeta, por mais que lutemos contra isso. Muito das opiniões, das idéias, dos anseios que temos, das sensações que captamos são parte do meio no qual estamos inseridos. Ē impossível ficar imune as influências que recebemos a cada instante. O astral e disposição de quem está aqui num dia chuvoso de inverno, abaixo de zero, com a lareira acesa é muito diferente daquele que está teclando de frente para o mar em pleno verão carioca e festa acontecendo ao seu redor. Por ai já começam a se notar diferenças de estilos de vida.

Acabamos fazendo coisas nesta cidade que jamais pensamos que iríamos gostar e vice versa. A cada dia descobrimos algo que nos agrada ou desagrada. Alguns pré-conceitos ou antipatias gratuitas que tínhamos caem por água abaixo e outras, infelizmente, surgem pelas circunstâncias que temos que enfrentar. Não é incomum você ouvir os brasileiros reclamarem dos “ indianos” ( sendo que na verdade muitos são paquistaneses e outros ingleses de segunda geração) que trabalham nas suas lojas de esquina (tipo armazéns) serem sujos e grossos. Este e um tipo de “antipatia” ou “implicância” inexistente no Brasil. O mais curioso e até chocante é observar brasileiros se sentirem mais no direito de aqui viver do que eles, sendo que eles na maioria, são cidadãos britânicos. Mas esse assunto eu deixarei para abordar numa outra oportunidade.

Uma questão interessante que observo é a dificuldade que temos aqui em transmitir de forma fiel as impressões sobre o que se vive neste lado do planeta. Alguém que esta em Teresina, por exemplo, jamais compreenderá minha mensagem de que “ aqui está congelando” se ela jamais sentiu essa sensação na sua vida. Vai sempre ficar um conceito “vago”, restrito a imagens que ela guardou de filmes ou fotos em revistas com pessoas agasalhadas caminhando em ruas cobertas de neve. Este e apenas um dos inúmeros exemplos que poderia dar desta “falta de referencia” para entender algumas situações vivenciadas aqui. Usei este exemplo para mostrar que nossas experiências são muitas vezes intraduzíveis para os nossos amigos e familiares que estão no Brasil, sejam estas positivas ou negativas. E isso se aplica para ambos os lados. Um europeu não entende , por exemplo, o conceito de um Motel. Já tentei em vão explicar a casal de amigos suecos o propósito destes “mini hotéis” onde se paga para não dormir. Por mais que me esforçasse para dar uma noção real, sempre ficava algo meio incompreensível e até “exótico” aos olhos deles. Poderia citar outros casos engraçados do que acontece quando não temos referencias para basear nossas impressões e as vezes até opinar.

Você certamente vai lembrar de algum filme ou livro de ficção cientifica onde os ETs tentam explicar aos humanos o tipo de combustível que usam em suas naves para se transportar entre galáxias. Por mais que simplifiquem o tema, ainda os humanos não têm compreensão para aceitar algo que é tecnologicamente “impossível”.

O meio (pessoas, clima, luz, arômas, vegetação, etc.) muda nossa disposição, nosso estado de espírito. A Londres do verão em nada se parece com a Londres do inverno. Ninguém irá discordar dessa afirmação. E se o clima e a paisagem mudam, as pessoas também, e para melhor, quando entra o verão. Sentimos uma melhor vibração e energia no ar. Mais tolerância e bom humor de forma generalizada. Quem chega aqui em agosto certamente não sairá com a mesma impressão e opinião sobre a idade que alguém que vem em janeiro. Assim como alguém que convive só com brasileiros também não terá uma visão muito precisa da cultura familiar inglesa ou internacional.

Portanto, os relatos que você ouve no Brasil sobre a vida aqui são os mais variados possíveis como são variados os micros ambientes que se formam nesta cidade. Os ângulos de visão são tão amplos quanto as variáveis ambientais. Cada um tem seu ponto de vista com base em suas referencias, seus ideais e seus valores. Se você quiser colher informações para entender como as coisas funcionam nesta e em qualquer outra cultura, procure sempre analisar cuidadosamente a fonte de informação.

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Festivais de cinema brasileiro em Londres

Setembro pode culminar com o fim do verão, talvez um dos melhores dos últimos anos, mas está sendo um mês muito intenso para o cinema brasileiro aqui em Londres. Acontecem simultaneamente dois festivais de grande porte e qualidade.
Ambos são apoiados pela Embratur e pelo Governo Brasileiro com suporte da Embaixada Brasileira em Londres. Veja abaixo algumas informações sobre eles:

O 3o Festival de Cinema Brasileiro: Perspectivas Urbanas iniciou dia 8 de setembro e vai até 8 de outubro e está realizado no Barbican Centre. O tema da nova edição pretende abordar a formação urbana das pequenas cidades aos grandes centros, migrações e o papel da urbanização nas relações sociais.

Durante este festival acontecerá no mesmo local, dia 3 de outubro, o Simpósio do Cinema Brasileiro Transnacional. Realizado pelo CENA -Centro de Análise do Cinema e Audiovisual e Embaixada Brasileira em parceria com o Discovering Latin America Film Festival e University of Leeds (Centre for Brazilian Film Studies), este evento parte da premissa de que a conquista do mercado internacional faz-se um imperativo para o cinema brasileiro. O simpósio trará representantes da comunidade acadêmica brasileira e britânica, gestores públicos de ambos os países, além de executivos e analistas de mercado e especialistas em financiamento cultural, que têm participado publicamente desta discussão.

Maiores informações: Tel 02082690996 NextBrazil Events


O 1º Cine Fest Brasil-Londres, que é realizado pela Circuito Inffinito de Festivais em diversos paises como Estados Unidos, Canadá e Argentina, estréia em Londres, dia 17 de setembro no Riverside Studios, com a exibição da comédia “Se eu fosse você 2”, que bateu o recorde de bilheteria no Brasil, levando mais de 6 milhões de pessoas aos cinemas. A atriz Glória Pires será uma das convidas especiais do festival assim como o renomado diretor Bruno Barreto que terá seu filme “Última parada 174” apresentado na noite de encerramento, dia 20 de setembro.

Maiores informações : E-mail : prodlondon@brazilianfilmfestival.com / Tel: +44 (0)7939 941 831 / www.brazilianfilmfestivals.com
Para comprar tickets www.riversidestudios.co.uk.

Para quem curte cinema, e principalmente quer saber o que esta sendo produzidos no Brasil, estes dois festivais são uma excelente oportunidade para se atualizar e aprender mais sobre as iniciativas que estão sendo tomadas para desenvolver o cinema nacional e prospectar novos mercados.

Fica ai a dica da semana!

A vida cultural intensa em Londres

Nesta semana quero dedicar este espaço para algumas dicas sobre eventos culturais em Londres.

Nesta cidade tão rica culturalmente não poderiam faltar opções de amostras de filmes e festivais de cinema de diversos paises assim como exposições de artistas novos ou famosos. Um dos maiores centros de eventos culturais aqui em Londres é o Barbican Centre, que fica próximo à estação de Moorgate, no coração financeiro da cidade. Ē um local enorme e moderno onde você até se perde nos seus corredores. Possui uma vasta programação semanal para todos os gostos, que incluem filmes internacionais, shows musicais, palestras e exibições artísticas. Vale a pena conferir a programação dos eventos no site: http://www.barbican.org.uk .

Outro local não menos sofisticado e dinâmico é o SouthBank Centre que inclui o Royal Festival Hall, Queen Elizabeth Hall e o Hayward Gallery e se encontra quase ao lado da BA London Eye e Tate Modern. Poucos centros culturais atraem um publico tão diversificado quanto este. Sua programação inclui espetáculos de world music, musica clássica, rock, pop, jazz e danças, além exibições de artes visuais. Para conferir o calendário de atrações visite :http://www.southbankcentre.co.uk

No lado Oeste da cidade, a beira do Tamisa, se destaca o Riverside Studios, um moderno centro de artes e mídia. Ali se encontra um dos mais bem sucedidos estúdios de TV independentes de Londres (Studio 1). Conheça mais sobre o local e sua programação: Visite http://www.riversidestudios.co.uk

Existem também muitos outros centros de eventos que oferecem programações de alto nível e bem segmentadas, mas por serem pequenos e as vezes não terem uma fachada no primeiro piso podem passar desapercebidos. Por isso, vale a pena conferir no site da Time Out o que esta acontecendo na cidade para não perder atrações que as vezes só acontecem no circuito europeu: http://www.timeout.com/london

sábado, 12 de setembro de 2009

A arte de viajar

E bom viajar, não? Sair de casa, explorar lugares com um clima, costumes e paisagens diferentes. Para muitos, isso parece ser a promessa de felicidade. Encontrar lá fora o que não temos em casa.

Muitas vezes nos encantamos e valorizamos as coisas do exterior, não apenas por serem novidade para nós, mas por parecerem estar mais em sintonia com a nossa identidade ou com aquilo que nosso próprio país não pode oferecer.

Uma viagem pode transformar completamente a nossa vida. Ela pode mudar o rumo que havíamos inicialmente traçado. Talvez por isso que alguns, mais avessos a mudanças, sintam medo de viajar, de sair de suas rotinas. No fundo podem temer essas mudanças inevitáveis. Aquilo que nossos olhos não vem nossos corações não sentem, esse famoso dito popular e uma verdade para quem experimenta a aventura de viajar, de se afastar de sua terra. Quando você sai de seu espaço e zona de conforto você vivencia uma outra realidade e, consequentemente, é quase impossível você seguir sendo a mesma pessoa.

Mas você já se perguntou o por quê? Por que escolheu um certo destino?

Alain de Botton, um filósofo suíço contemporâneo, bastante popular na Inglaterra, e com frequentes aparições em programas de TV (você o achará no youtube) começa seu livro “A arte de viajar” dizendo que existem milhares de revistas e livros de viagem sugerindo os destinos que você deveria ir, mas quase nunca nos perguntamos o por quê de ir e como podemos nos realizar tornando esta experiência real.

Demorei a perceber que viajar pode distorcer nossa curiosidade quando ela segue uma lógica geográfica superficial. O perigo da viagem é que seguidamente vemos as coisas no momento errado, sem termos dado o devido tempo para aumentar nossa receptividade. Muitas vezes nos sentimos obrigados a apreciar coisas que não tem conexão uma com a outra a não ser sua posição geográfica. Quando viajamos a novos lugares podemos optar pelo comodismo, seguindo a risca um manual de viagem, um guia turístico ou o conselho de um experiente viajante, usando sua mesma linha de raciocínio ou podemos nos aventurar , dando liberdade a nossa imaginação e capturando as sensações através de nossos próprios interesses numa seqüência mais lógica, prazerosa e proveitosa.


Não e raro ver pacotes de turismo que incluem 10 paises em 5 dias onde em casa destino há inúmeros programas e pontos turísticos que já foram visitados por milhões de pessoas. A única diferença aparente é o ângulo e luminosidade que serão captadas as imagens pelas lentes da câmera. No entanto, apesar do ritmo frenético e até desnecessário destes pacotes, o observador atento poderá ver coisas que irão despertar sua curiosidade para novas áreas de interesse. Acredito estar ai uma das grandes maravilhas de viajar: despertar nossa curiosidade.

Viajar não e apenas ver novos lugares, já que isso é possível com um grau impressionante de exatidão apenas usando o “Google earth, mas envolver os cinco sentimos e se misturar com o ambiente para captar novas sensações e expandir nossa compreensão sobre as coisas que nos rodeiam. Viajar exige sabedoria e se eu tivesse que apontar uma habilidade essencial para desenvolver a arte de viajar esta seria a “ capacidade de observação”

When I look back
I see the landscape
That I have walked through
But it is different

All the great trees are gone
It seems there are
Remnants of them

But it is the afterglow
Inside of you

Of all those you meet
Who mean something in your life

Olav Rex, 1977


Boa viagem!

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Por que você escolheu Londres?

Através deste espaço eu tenho a oportunidade de conversar com muitas pessoas interessadas em vir para Londres. Observo que as principais razões que as impulsionam para esta aventura são:

1) Ganhar fluência no idioma;
2) Conhecer novas culturas;
3) Viajar pela europa.

Fazer dinheiro? Bem, raramente ouço alguém dizer que a intenção da viagem é fazer um pé de meia, embora, muitos, de forma subconsciente, acreditem que poderão unir lazer, viagem, estudo e ainda fazer uma pequena fortuna. Isso não significa que não existam pessoas que vieram e ficaram, ilegalmente em muitos casos, e engordaram suas contas bancarias trabalhando anos seguidos sem tirar férias e se privando de qualquer espécie de conforto e de todas as maravilhas que a cidade oferece em termos de educação e lazer. Muitos chegaram aqui no final dos anos noventa e conseguiram poupar algo para enviar a suas famílias ou realizar algum investimento pessoal. Contudo, costumo dizer que, na maioria dos casos, nos dias de hoje, o que se ganha aqui fica aqui.

Não é minha intenção dizer o que você dever fazer aqui e como viver sua vida. Os motivos e escolhas são pessoais. Cada um sabe o que é melhor para si e se ainda não sabe, e apenas por falta de conhecimento ou experiência. O que eu posso fazer e trazer algumas experiências pessoais que em muitos casos servem de alerta ou sugestões de como melhor aproveitar a viagem.

Vir a Londres para ganhar dinheiro é uma armadilha. Num primeiro momento parece tentador receber em libras e converter para a moeda brasileira. Ganhando na moeda local o custo aqui é proporcionalmente mais baixo do que no Brasil, com exceção da moradia e prestação de serviços (limpeza, pintura, jardinagem, etc). Você consegue aproveitar a cidade muito bem com um salário básico. Porém, é importante esclarecer este assunto:

Como estudante você não poderá trabalhar mais do que 4 horas por dia. Imaginemos que você consiga trabalhar 4 horas de forma legal, em algum restaurante ou bar e outras 4 horas ou mais (considerado ilegal) na casa de alguém baby-sitter, ajudante de pessoas idosas, etc. Vamos pensar que você consiga poupar um valor suficiente para se manter aqui e ainda sobre um pouco para viajar e voltar ao Brasil com as contas pagas da sua viagem. Na maioria dos casos os estudantes conseguem um ano de visto, ou dois no máximo. Há casos de alunos que conseguiram três e até quatro anos, mas isso é a exceção, não a regra. Considere que você conseguiu 2 anos, o que um bom tempo de permanência.

Se você fizer as contas no papel irá chegar a conclusão de que para juntar uma quantia extra, suficiente para comprar um automóvel zero no Brasil ou dar uma entrada na compra de um imóvel você terá que fazer um esforço gigantesco. Isso inclui abrir mão de viver em melhores condições, realizar pequenas viagens pela Europa, fazer cursos profissionalizantes, curtir a vida cultural, sair a noite, etc.

Um exemplo típico que posso dar e o do estudante brasileiro que vive há mais de dois anos aqui e que veio inicialmente com o propósito de aprender a língua. No fim, ele se empolga e consegue vários “bicos” e durante este período ele só trabalha em funções que não acrescentam nada ao seu CV. Não tem tempo de estudar, pois esta sempre cansado, vai à escola no mínimo de horas que pode, não interage com a cultura local, não tem tempo de viajar ou fazer turismo local, não aprende o idioma, enfim, só consegue juntar dinheiro. Ele acaba ficando escravo do sistema porque enquanto vive neste país, qualquer tipo de atividade rende uma remuneração decente, mas muitas destas atividades no Brasil não são valorizadas e ele acaba voltando sem qualquer qualificação profissional e educacional. Sem uma experiência rica e com fluência zero na língua este dinheiro que ele conseguiu fazer aqui em 2 anos logo evapora.

Minha visão e de que se você não pode ou não quer ficar vivendo por aqui o ideal e usufruir durante sua estada tudo que a cidade tem a oferecer para seu crescimento. Estes frutos você poderá colher depois em seu pais, conseguindo uma melhor colocação em sua empresa ou um novo emprego ou mesmo começando seu próprio negócio com novas idéias. Mas, como eu coloquei antes, cada um pode e deve assumir suas escolhas.

São infinitos os caminhos que podemos seguir, mas não importa qual escolhemos, se fizermos a pergunta “Por que?” teremos dado um passo a nos tornamos mais consciente de nossa decisão.